segunda-feira, 28 de março de 2011

Bom, vou dormir.

Em setembro faço 40. Foi e está sendo difícil me encontrar. A maioria das pessoas segue um roteiro mais ou menos padrão de vida. Estuda, namora, trabalha para uma empresa, casa, depois monta um negócio próprio, tem filhos e vai construindo um patrimônio, não só material, mas de relacionamentos sociais também. Seguem mais ou menos na mesma faixa de renda com as quais já estão acostumadas. Os pobres continuam pobres e os ricos idem. Minha história é toda cheia de idas e vindas: larguei as faculdades, trabalhei nos mais diversos negócios do meu pai, em sua maioria como funcionário de luxo, falimos o último em grande estilo, inclusive, e tive um casamento totalmente sem propósito. Vivi sem rumo um bom tempo, principalmente por causa da piora do alcoolismo, que hoje tenho consciência, já afetava bastante minhas decisões desde a adolescência.
Tive vergonha de mim mesmo um bom tempo. Vergonha da minha aparência e da minha condição financeira, mas sempre era considerado uma boa pessoa pelos outros. Evitava entrar em atrito com quem quer que fosse. Na pior fase da bebedeira, nem convidado eu era mais para nada. E quando era, também não fazia questão nenhuma de ir. Fiquei sem dinheiro para comer. Acabava o gás e eu não tinha dinheiro para comprar outro. Nem dinheiro para o ônibus eu tinha. Para procurar emprego tinha que pedir dinheiro emprestado para ir à entrevista. Meus filhos me pediam coisas simples e eu não comprava para comprar cerveja para mim. As pessoas que estavam a minha volta me ajudavam na medida do possível e só por isso ainda consegui levar uma vida com um mínimo de dignidade. O engraçado é que descrevo o que aconteceu comigo, mas não parece que foi comigo. Parece que foi com um ser qualquer. EU não existi nesse intervalo. Contrasta demais com a minha auto-imagem, que foi construída na infância e na adolescência. Não é porque meu pai conseguia me dar uma condição financeira boa. É que as coisas que eu fazia, fazia bem. Era bom aluno, era bom atleta de várias modalidades, era considerado bonito, inteligente e tinha muitos amigos. Não quero aqui me gabar disso tudo, mas são fatos que marcaram a minha personalidade. Esta é a MINHA personalidade. Me reconheço nela. Como pode uma pessoa que se reconhece como um vencedor, se encontrar na condição de não ter 1 cruzeiro no bolso, nem amigos, uma mulher (deixa pra lá...), etc etc ??? Não sei também que tipo de distúrbio me fez chegar neste ponto. Sei que não posso pegar este período de quase 20 anos e dizer que não era eu. Eu que fiz aquilo tudo.
O que me leva ao conflito atual. Me escondia, agora tomo decisões que afetam a mim e a vida dos outros. Tenho empresa de verdade, funcionários, financiamentos para pagar. Quem sou eu agora? Eu, que era avesso ao conflito, agora tenho que me policiar para não ser um tanto rude até com as pessoas mais próximas. É como se aquela personalidade tivesse ficado presa 20 anos e agora que está solta comete os exageros dos recém saídos da prisão. Dou ordens, cobro, xingo. Sou EU de novo. E as pessoas ficam realmente incomodadas com um pouco de sucesso? Os invejos desconhecia por motivos óbvios. Que algumas tentam se aproveitar também sei, mas isso não me incomoda particularmente. Ignoro e finjo que não é comigo... É normal sentir prazer em confrontar as pessoas? É normal ter uma opinião formada e defender esta opinião com afinco? Deveria ser mais político com os idiotas? E com quem não é idiota? Não tenho a pretensão de ter razão em tudo, só em quase tudo. E mudo de opinião, contanto que me apresentem uma melhor. Isso é ser arrogante? Quem liga pra isso? As pessoas que me acham arrogante não são justamente as idiotas? Vou fazer o que??? Bom, vou dormir.

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